Um santo para os nossos tempos
Personalidade política e homem de governo

Dom Christoph Schönborn, Arcebispo de Viena
L’Osservatore Romano
3 de outubro de 2004 – Edição Especial

Pode um político viver santamente? Tem sentido e é concebível elevar às honras do altar um Chefe de Estado, personalidade de destaque da Primeira Guerra Mundial? São perguntas que a beatificação de Carlos da Áustria suscita.

Todo homem é chamado à santidade e é capaz de atingi-la. Pessoas que têm responsabilidade e poderes de decisão, tais como os políticos, os grandes industriais, ou também os Bispos, devem enfrentar um desafio particular, mas em nenhum caso estão isentos da chamada à santidade. A imagem que a opinião pública tem de Carlos da Áustria ficou distorcida pela propaganda e pela calúnia. A cuidadosa pesquisa científica e histórica ligada ao Processo de Beatificação pôde desmascarar e corrigir estas distorções.

Entre todos os Chefes de Estado dos países envolvidos na Primeira Guerra Mundial, ele foi o único a fazer a experiência do fronte. Empenhou-se em mitigar os horrores da guerra e em buscar a paz. Considerou a paz como seu dever de Imperador. Em seu Manifesto de Ascensão ao trono, definiu a paz como objetivo central. Apenas Carlos sustentou os esforços pela paz propostos pelo Papa Bento XV e, em tal sentido, elaborou uma série de soluções (que os historiadores julgaram realísticas e ricas de possibilidades). No entanto, todos estes esforços naufragaram na loucura da “paz vitoriosa” de determinadas forças (Hindenburg, Ludendorff) dos interlocutores alemães e do partido contrário à paz da Entente.

Carlos estava pronto a sacrificar-se pela paz e também depois de sua exautoração tentou obter e consolidar a paz e a estabilidade entre seus povos e entre todas as nações européias. Tentou novamente exercer o poder na Hungria a convite do Papa, na solicitude (legítima!) pela estabilidade e liberdade. O Imperador considerou o sofrimento ligado à sua morte como sacrifício pela paz e unidade na Europa Central.

Devido à superioridade das forças que lhe eram opostas, o Imperador Carlos não conseguiu conduzir unida a monarquia do Danúbio à paz, mas conseguiu (contra os planos austríaco-alemães) garantir a independência da Áustria e realizar uma passagem pacífica da monarquia aos Estados que a seguiram, mediante a instituição de Conselhos Nacionais.

Não só no sentido de caridade individual para com o próximo – desde a infância prodigalizou-se pelos necessitados que encontrava –, mas na qualidade de Imperador elaborou um programa social completo. Foi o primeiro no mundo a nomear um Ministério para questões sociais e conferiu à política social uma nova dimensão, empenhando-se na tutela dos jovens, no direito da família, na previdência social, no direito ao emprego e no projeto de Câmaras de Trabalho. As estruturas fundamentais destas iniciativas existem ainda hoje.

Considerou seu cargo como uma missão enviada por Deus. Isto não significou, de modo algum, a legitimação de um exercício arbitrário do poder, mas o dever incondicional de seguir, justamente revestido daquele cargo, a Cristo, o único Rei verdadeiro, e imitar-lhe o exemplo. Carlos jamais tomou alguma decisão importante sem ter rezado antes. Uma adoração interior da Eucaristia e do Sagrado Coração de Jesus (ambos símbolo e expressão do infinito amor de Deus) conferia-lhe estabilidade e direcionamento. Simplesmente, não pôde eximir-se de desempenhar aquela missão. Uma abdicação ter-lhe-ia garantido riqueza e comodidade (como ao Imperador Guilherme II). Aceitou a pobreza, a necessidade e os sofrimentos ligados à morte (que, com um patrimônio, certamente, não teria padecido) para permanecer fiel à sua missão e seguir a Cristo no serviço aos povos a ele confiados. O matrimônio de Carlos e Zita foi exemplar.

O Imperador falava abertamente e com confiança sobre todas as questões importantes com sua esposa, que era cheia de respeito pela sua responsabilidade e autoridade. O temperamento vivo e apaixonado da Imperatriz e o caráter manso e introspectivo do Imperador completavam-se num mútuo apreço cumulado de amor. Em onze anos de casamento, tiveram oito filhos. O Processo de Beatificação, durante o qual foi examinada com diligência também a sua vida familiar, evidenciou o comportamento irrepreensível do Imperador Carlos como marido. As últimas palavras que Carlos dirigiu à sua esposa foram: “Amo-lhe infinitamente”.

Empenhou-se pessoalmente na educação religiosa dos filhos, tornou-lhes familiares as verdades da fé e os guiou no exercício oração.

Viveu colocando em prática a oração. Sua postura fundamental era aquela da oração: estar conscientemente na presença de Deus, buscando discernir sua vontade e entregando tudo a ele.

Desde a infância, foi acompanhado na vida por pessoas dadas à oração. A partir de sua morte, a Liga de Oração reza, relembrando o Imperador Carlos, pedindo a sua intercessão pela paz dos povos.

A modéstia, a cordialidade e a disponibilidade para a reconciliação de Carlos foram consideradas, pelos cínicos do poder, como fraqueza e mesmo como uma forma de estupidez. Esta idéia se opõe à “loucura” do cristão, que procura comportar-se segundo a mensagem de Deus e o exemplo de Cristo, e se entrega a Deus.

Desde o início viveu entre discórdias que ele não havia provocado (as tensões entre seus pais; entre o Imperador Francisco José e o Herdeiro Presuntivo, Arquiduque Francisco Ferdinando; e aquelas em meio à Primeira Guerra Mundial), e prodigalizou-se pela paz. Na posição de Imperador, tal como quando era um menino, foi-lhe pedido pagar um preço muito alto por isto. Algum homem teria podido resolver estes problemas? É difícil responder a esta pergunta, como também àquela se o Imperador conseguiu evitar algo pior. Se uma existência vivida na presença de Deus – e mesmo antes da conclusão definitiva da História – é bem sucedida, isto não depende do imediato sucesso terreno (do contrário, Cristo não poderia ser considerado um exemplo!). É vida santa e útil aquela de quem busca satisfazer a vontade de Deus, não obstante as adversidades e os próprios limites. Como cristãos, a todos nós é pedido um preço muito alto: seguir o exemplo de Cristo. Tal tarefa, nas adversidades deste mundo, ultrapassa, sem dúvida, as capacidades humanas. Contudo, não devemos contar apenas com as nossas forças, mas somos convidados a aceitar o auxílio de Deus e a nos entregarmos a ele contra a lógica da violência.

Um sentimento de resignação corre o risco de difundir-se diante do choque e do cínico recurso à violência do nosso mundo. Tem sentido opor-se a ele? Os iníquos, porventura, não vencem, como já se lamentava o salmista? A paz no mundo é possível? Os povos da Europa podem viver na paz e no respeito? Conseguimos manter a paz mesmo apenas em nossa família?

A vida do Imperador Carlos é um exemplo encorajador de fé. A sua beatificação pretende encorajar todos aqueles que se sentem sobrecarregados pelas suas responsabilidades e convida a usar as próprias possibilidades (embora ainda tão limitadas) para promover a paz, a liberdade e uma responsabilidade cheia de amor.

Depois de um “século perdido” de destruição por causa de ideologias atéias como o nacional-socialismo e o bolchevismo, os povos da Europa têm novamente a possibilidade de se reunirem. Para este fim, é preciso despertar e reavivar a alma da Europa no espírito de Cristo, no Espírito Santo. As dificuldades que encontramos não devem nos desanimar, mas, sim, nos estimular a discernir com maior empenho a vontade de Deus e a agir com confiança nele. Carlos da Áustria, que viveu com este espírito e ofereceu a própria vida para a união dos povos, é um exemplo encorajador e um patrono.

A loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria do mundo. A confiança nele ajuda a viver.